Por Katia Brito
Psicóloga · CRP 06/112126
Publicado em 11/11/2020 · Atualizado em 15/07/2026
A irritabilidade persegue você?
É verdade que, às vezes, o mundo parece não fazer sentido. As notícias ruins não tem fim, sejam na TV, no trabalho ou proferidas por uma vizinha.
Fatores que antes você não dava importância agora o tiram do sério, como o trânsito, a fila para usar o caixa eletrônico, a conversa fiada dos seus colegas de trabalho, e até o alto astral de um desconhecido. Afinal, como alguém consegue ser tão feliz?
Qualquer palavra ou atitude de terceiros, por mais simples que seja, é o suficiente para causar uma explosão de irritação em seu interior. Assim que a raiva passa, no entanto, você se questiona porque reagiu daquela maneira e sente remorso por ter sido grosseiro.

Você pode se sentir confuso após explodir dessa maneira, mas não tema. Existe uma explicação perfeitamente plausível para a irritabilidade que surge sem motivo aparente.
Por que ficamos irritados?
Você provavelmente não precisa pensar muito para apontar o que lhe deixa irritado. Todo mundo tem pequenos gatilhos de irritação, os quais podem ter relação com literalmente qualquer coisa.
Fechadas no trânsito, sons de mastigação, guardar objetos fora do lugar, comunicação ineficiente, barulhos altos… São pequenas experiências mundanas que podem nos deixar irritados.
De vez em quando é normal sentir irritação. Este estado de humor é uma resposta natural do organismo a uma situação que gera desconforto ou indignação. Ele serve para nos ajudar a mudar a realidade e recuperar o bem-estar emocional.
Se filas longas o irritam, o mais lógico a fazer é sair de casa mais cedo ou mais tarde para evitar horários de pico no trânsito ou em estabelecimentos.
Mas, caso você precise ir ao banco, onde é impossível escapar de filas, pode ler um livro, adiantar o trabalho no local ou jogar um jogo de celular enquanto espera.
Em outras palavras, a irritação nos ajuda a desenvolver mecanismos para evitar o desagradável.
Algumas pessoas ficam irritadas com mais frequência. Moradores de grandes centros, por exemplo, têm mais chances de esbarrar com situações que causam irritação em comparação aos moradores do interior. Uma cidade maior, com mais pessoas e movimento constante, naturalmente atrai mais estresse.
Todavia, esse estado de humor desaparece em algum momento. Pode demorar alguns minutos para você se acalmar e sentir-se bem novamente, mas, no fim, a irritação some.
É preciso ficar atento quando a irritabilidade parecer não querer deixá-lo. A sua permanência pode ter outro significado.
Relação entre depressão e irritabilidade
A depressão é uma condição que afeta diretamente o humor, prejudicando a regulação saudável das emoções. Os seus principais sintomas são o excesso de tristeza, a apatia e a falta de esperança.
Todavia, a raiva, a irritabilidade e o mau humor também podem se manifestar como sintomas depressivos.
As pessoas tendem a ver a depressão como uma condição inteiramente triste. Consideram somente as crises de choro, a perda de interesse pela vida e o desânimo para levantar da cama.
Por um lado, estão certas. O depressivo expressa esses sintomas em diferentes intensidades.
Ele também possui uma tendência maior a reagir ao mundo com negatividade.
Acontecimentos simples podem ser interpretados como verdadeiras afrontas ou descaso com os seus sentimentos e necessidades. Assim, a impaciência e a irritação podem se tornar reações naturais do depressivo.
Esse último sintoma, na verdade, é mais frequente em quadros depressivos severos. Um estudo da U.S. National Institute of Mental Health (Instituto Nacional de Saúde Mental dos Estados Unidos, em português) identificou que a irritabilidade tende a estar associada à depressão profunda, dificuldade para conter impulsos, abuso de substâncias e de álcool e condições ligadas à ansiedade.
Além de contribuir para o aumento do estresse na vida do depressivo, a irritação latente afasta os entes queridos, cria um distanciamento entre amigos e conhecidos, interfere em seu relacionamento amoroso, o incapacita de relaxar por completo e o impede de enxergar oportunidades boas para a sua carreira e/ou felicidade pessoal.
Como identificar a irritabilidade?
O primeiro momento de identificação da irritabilidade tende a acontecer da forma descrita na introdução deste texto. A pessoa percebe que a sua irritação foi desproporcional para uma determinada situação e sente-se mal por ter reagido assim. A partir do momento que esse primeiro clique acontece, ela passa a notar mais momentos de extrapolação da raiva.
O passo seguinte é buscar um médico ou um psicólogo para descobrir o que pode estar causando esse excesso de irritação. A tendência da nossa sociedade é atribuir todas as nossas reações negativas ao estresse. “Ele(a) está muito irritado(a) porque está estressado(a)”, é o pretexto comumente usado para justificar o estado de humor alheio.
Embora o estresse também deixe as pessoas mais irritadas, ele não é o único culpado pela súbita mudança do nosso humor. A depressão e a ansiedade podem estar igualmente por trás da falta de paciência crônica.
Para ajudá-lo a identificar a qualidade do seu estado de humor, confira as situações abaixo. Você provavelmente está muito irritado se:
- Irrita-se por pouca coisa, como um barulho, uma atitude, uma conversa ou um acontecimento, e não consegue se explicar para os outros;
- Perde a paciência com facilidade;
- Grita ou xinga o alvo de sua irritação sem pensar nas consequências;
- Fala de maneira grosseira sem perceber. Para ter ciência disso, é preciso que alguém faça um alerta sobre o seu comportamento rude;
- Sente-se sobrecarregado de emoções quando fica irritado;
- Irrita-se simplesmente ao pensar que precisará passar por uma situação maçante;
- Levanta já de mau humor;
- Briga com familiares mais frequentemente;
- Não consegue entender o porquê de estar com raiva;
- Preocupa-se com as suas oscilações de humor;
- Sente-se mentalmente e emocionalmente exausto com frequência; e
- Pergunta-se porque não consegue aproveitar a vida como fazia antes.
Como saber se a irritabilidade está relacionada a depressão?
Além da irritabilidade, o depressivo sente um conjunto de sintomas típicos dessa condição. Eles podem afetar tanto o emocional (perda de interesse, culpa, sensação de vazio, tristeza) quanto o físico (insônia, ganho ou perda de peso, dores de cabeça, dificuldade de concentração, pensamentos desconexos).
Quando a irritação vem acompanhada dos demais sintomas da depressão, é possível que o transtorno esteja por trás da decaída no humor. Quem pode determinar isso ou não com precisão são os psicólogos.
Durante a sessão de terapia, o paciente irá informá-lo sobre os sentimentos que tem sentido bem como relatar as suas oscilações de humor recentes. Assim, o profissional conseguirá analisar o seu quadro e chegar a um diagnóstico.
É importante buscar o parecer de um psicólogo nessa situação, pois a irritabilidade pode evoluir desproporcionalmente e passar a refletir em seu cotidiano. A fragilidade dos relacionamentos, a improdutividade no trabalho e a insatisfação com a vida são algumas das consequências da irritação exagerada.
Como controlar a irritabilidade?
Além da psicoterapia, existem algumas maneiras de administrar esse estado de humor desagradável no dia a dia.
1. Decida como você deseja reagir
É possível definir como você desejaria reagir às situações irritantes. Pergunte a si mesmo como você gostaria de lidar com situações que lhe causam desconforto e elenque como você reage a elas atualmente. Sempre que possível, pratique a sua reação ideal. Você pode falhar para seguir o seu plano nas primeiras tentativas, mas, com o tempo, conseguirá manter o hábito de reagir com menos intensidade.
2. Procure uma distração
Quando sentir-se irritado, busque modificar o objeto de sua atenção. Pode parecer pouco eficiente, mas essa estratégia realmente funciona. Pense em coisas boas (pessoas, lembranças, sonhos de vida), conte até um determinado número ou simplesmente se perca em observações sobre o ambiente (objetos decorativos, arquitetura, móveis). Se necessário, retire-se do local estressor para encontrar a distração perfeita.
3. Desapegue-se do controle
Se você costuma ficar irritado com as atitudes das outras pessoas, pergunte-se porque é tão importante que elas não ajam daquela maneira. Você (nem ninguém) pode controlar a vida alheia. É possível expressar a sua irritação com o comportamento ou linguagem de um terceiro. Todavia, é provável que ele dê de ombros e continue vivendo. Então, por que você está gastando energia se irritando com os outros?
4. Faça exercícios de respiração profunda
A respiração profunda pode ser utilizada para o seu benefício de duas maneiras. A primeira é durante um acesso súbito de irritação para distraí-lo do sentimento ruim. Já a segunda é na forma de exercícios diários para promover um estado mental tranquilo todos os dias (ou sempre que necessário).
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Autor: Psicóloga Katia Cristina Brito - CRP 06/112126Formação: Psicóloga com mais de 15 anos de experiência, com atuação clínica voltada ao atendimento de adultos e adolescentes. Possui formação com enfoque psicanalítico e especialização em Neuropsicologia, com atualização constante em neurociências e saúde mental.
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